
As cirurgias realizadas para redução do tamanho do clitóris podem causar redução da sensibilidade prazerosa do órgão e levar à anorgasmia.
Paralelamente ao uso indiscriminado dos implantes de testosterona, cresce o mercado das chamadas “cirurgias íntimas”, entre elas os procedimentos de redução e reposicionamento do clitóris. Esta intervenção é tecnicamente complexa, realizada em uma estrutura com rica vascularização e extensa rede de nervos que são responsáveis pelo prazer sexual. A manipulação cirúrgica do clitóris pode danificar as terminações nervosas essenciais para a sensibilidade erótica e para o orgasmo. Entre as possíveis complicações cirúrgicas do clitóris estão a diminuição da sensibilidade, dor crônica, redução do prazer sexual e anorgasmia. Uma revisão sistemática evidenciou estes efeitos adversos em 22% das mulheres que passaram por procedimentos na região do clitóris 1.
O clitóris é um órgão composto por estruturas eréteis e não eréteis, cuja única função conhecida até hoje é a promoção o prazer sexual feminino. O clitóris apresenta ampla variabilidade anatômica, tanto em sua forma quanto em suas dimensões. A estrutura do clitóris foi redefinida em estudo recente, utilizando tecnologia avançada para aquisição de imagens por microtomografia computadorizada em escala micrométrica (“micron-scale computed tomography imaging”) utilizando radiação sincrotron 2. Esta tecnologia permitiu certificar o trajeto do nervo dorsal do clitóris e redefinir a extensa rede de nervos sensoriais existente na glande do clitóris. O nervo dorsal do clitóris é um ramo do nervo pudendo. Seus ramos direito e esquerdo seguem juntos aos pilares clitorianos (crura), onde o ramo esquerdo percorre trajeto entre as posições de 1 e 2 horas, enquanto o ramo direito segue entre 10 e 11 horas, em relação à linha média 2. O nervo dorsal do clitóris também inerva o prepúcio do clitóris e o monte pubiano 1.
Recentemente, uma metanálise que compilou dados de diversos estudos estimou que a glande apresenta, em média, 6,40 mm de comprimento e 5,14 mm da largura, o corpo do clitóris mede 25,46 mm e 9,00 mm de largura, os ramos (crura) medem, em média, 52,41 mm e 8,71 mm de largura, os bulbos vestibulares medem 52,00 mm de comprimento e 10,33 mm de largura. O estudo também demonstrou que a distância média entre o clitóris e o meato uretral externo é de 22,27 mm, entre o clitóris e o óstio da vagina é de 43,14 mm e entre o clitóris e o ânus é de 76,30 mm 3.
Conhecer a anatomia do clitóris e a localização da inervação sensorial é fundamental para a prevenção de danos derivados de intervenções cirúrgicas na genitália feminina, que podem comprometer a sensibilidade da região e danificar a resposta sexual prazerosa da mulher
Especialista em saúde e educação sexual com vasta experiência em orientação e prevenção.

