
O protocolo de anamnese sexual que disponibilizamos oferece orientação prática para investigar, com segurança, as queixas sexuais da mulher, mas que pode ser utilizado para avaliar a queixa sexual masculina. As disfunções sexuais são prevalentes em todo o mundo, afetando cerca de 43% das mulheres e 32% dos homens, entretanto, apenas 20% a 30% dos médicos abordam o tema durante a consulta. Perguntar adequadamente permite reconhecer sofrimento, identificar fatores clínicos e psicossociais e planejar intervenções individualizadas. Essa abordagem é respaldada pelo relatório da OMS de 1975, Education and Treatment in Human Sexuality, referência para a formação dos profissionais de saúde.
A Organização Mundial da Saúde refere que a saúde sexual é a integração dos aspectos somático, emocional, intelectual e social do ser sexual, de forma que enriqueça positivamente e melhore a personalidade, comunicação e o amor. Portanto, a promoção da saúde sexual implica a abordagem positiva da sexualidade humana, visando melhorar a vida pessoal e os relacionamentos interpessoais 1. No Brasil, as queixas sexuais atingem 43% das mulheres e 32% dos homens 2 e, em determinadas populações, respondem por grande parte dos casos de divórcios 3 sendo, portanto, uma questão de saúde pública.
De acordo com a Classificação Internacional das Doenças (CID) 11, as disfunções sexuais são “síndromes que compreendem as várias maneiras pelas quais as pessoas adultas podem ter dificuldade em experimentar atividades sexuais pessoalmente satisfatórias e não coercitivas. A resposta sexual é uma interação complexa de processos psicológicos, interpessoais, sociais, culturais e fisiológicos, e um ou mais desses fatores podem afetar qualquer estágio desta resposta. Para ser considerada uma disfunção sexual, a disfunção deve: 1) ocorrer com frequência, embora possa estar ausente em algumas ocasiões; 2) estar presente por pelo menos vários meses; e 3) estar associada a sofrimento clinicamente significativo” 4. São quatro grupos de disfunções sexuais que se subdividem de acordo com os fatores associados: Desejo Sexual Hipoativo (HA00), Disfunções da excitação sexual (HA01), Disfunções orgásticas (HA02), Disfunções ejaculatórias (HA03) e Transtorno doloroso à penetração sexual (HA20) 4.
O desejo sexual hipoativo (DSH) refere-se à persistente ou recorrente deficiência ou ausência de fantasias sexuais/pensamentos, e/ou desejo ou receptividade para a atividade sexual, que causa angústia pessoal sendo a presença de “sofrimento”, a condição básica para caracterizar a disfunção sexual. A disfunção de excitação é a incapacidade persistente ou recorrente de adquirir ou manter uma resposta excitatória adequada (lubrificação, turgescência) até a consumação da atividade sexual. A disfunção orgástica é uma condição caracterizada pela demora persistente ou recorrente ou incapacidade de alcançar o orgasmo após uma fase de excitação sexual normal, resultando em angústia e/ou dificuldade interpessoal 4.
O transtorno doloroso à penetração sexual compreende (vaginismo) e é caracterizado por pelo menos um dos seguintes sintomas: 1) dificuldades acentuadas e persistentes ou recorrentes com a penetração, inclusive devido à contração ou tensão involuntária dos músculos do assoalho pélvico durante a tentativa de penetração; 2) dor vulvovaginal ou pélvica acentuada e persistente ou recorrente durante a penetração; 3) medo ou ansiedade acentuados e persistentes ou recorrentes da dor vulvovaginal ou pélvica em antecipação, durante ou como resultado da penetração. Os sintomas são recorrentes durante interações sexuais envolvendo tentativa de penetração, apesar do desejo e estimulação sexual adequados. Não são inteiramente atribuíveis a uma condição clínica que afete adversamente a área pélvica e resulte em dor genital e/ou penetrativa ou a um transtorno mental. Não são inteiramente atribuíveis à lubrificação vaginal insuficiente ou alterações pós-menopausa/relacionadas à idade, e estão associadas a sofrimento clinicamente significativo 4.
A vulvodínia descreve uma sensação crônica de dor, queimação ou ardor na pele da vulva que não pode ser atribuída a qualquer causa específica e que persiste por pelo menos três meses. Os sintomas podem ser difusos e não provocados (vulvodínia disestética) ou localizados, geralmente no vestíbulo vulvar, e provocados pelo toque (vestibulodínia). A vulvodínia disestética ocorre caracteristicamente em mulheres após a menopausa e que frequentemente não são sexualmente ativas: a dor é espontânea e frequentemente ocorre independentemente do toque. A vestibulodínia ocorre tipicamente em mulheres mais jovens e é caracterizada por sensibilidade vestibular ao toque, eritema do epitélio vestibular e dispareunia secundária 4.
A dispareunia é um sintoma de dor à relação sexual que pode ocorrer devido a diversas comorbidades gerais, genitais e urológicas.
2. Método de investigação das disfunções sexuais.
Identificação da queixa sexual: Qual a fase da sua resposta sexual está alterada: a fase do desejo sexual? A fase da excitação? A fase do orgasmo? Tem dor durante a relação sexual?
Caracterização da queixa sexual: início, duração, evento que determinou o surgimento da queixa, possíveis fatores associados, fatores que melhoram ou pioram a queixa (Figura 1).
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Caracteriza a queixa quanto à data em que surgiu, duração, fatores desencadeantes, condições associadas. |
Figura 1: Caracterização da queixa sexual.
Fatores associados à disfunção sexual: definir se a queixa sexual está associada a causa orgânica (surgimento após uso de determinado medicamento, no curso de patologias crônicas, após cirurgia, parto, menopausa, no climatério), psíquica (devido à repressão sexual familiar, religiosa ou social, após violência doméstica ou sexual, quebra de contrato, mitos e crendices) ou mista (pela sobreposição de fatores orgânicos e psíquicos) 5–10 (Tabela 1).
Tabela 1: Fatores associados às disfunções sexuais femininas.
Condições médicas | Diabetes, hipertensão arterial, tireoidopatias, neuropatias, dor pélvica crônica, depressão, ansiedade, doenças urológicas, hipoestrogenismo, hiperprolactinemia, hipoandrogenismo. |
Drogas psicoativas e depressoras do sistema nervoso central. | Benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos, inibidores da recaptação da serotonina (ISRSs), antipsicóticos antidopaminérgicos, antiandrogênicos (ciproterona, espironolactona), beta-bloqueadores adrenérgicos (propranolol), anti-hipertensivos de ação central (metildopa, reserpina), bloqueadores H2 histamina (cimetidina, ranitidina), anticoncepcionais hormonais. |
Diádicas (relacionais) | Relação conflituosa, de longa duração, a rotina relacional, ausência do ritual de sedução, preliminares insuficientes, disfunção sexual do parceiro. |
Socioculturais | Costumes, valores, tabus e mitos. |
Violência sexual | Abuso sexual, estupro, autoestima rebaixada, valores negativos em relação a sexualidade. |
Quebra de contrato. | Relações extraconjugais cursam com DSH e dificuldade de entrega. |
Repressão sexual | Familiar, religiosa e social no processo de formação da sexualidade induz ao sentimento negativo em relação à sua sexualidade e inibe a expressão sexual. |
Hormonais | Hiperprolactinemia, anticoncepcionais hormonais, hipotireoidismo, hipoestrogenismo. |
Desconhecimento da anatomia genital e da resposta sexual. | Repertório sexual limitado, inibição, dificuldade de entrega. |
História gineco-obstétrica: idade da menarca, gestações e partos, via de parto, complicações na gravidez e parto, método anticoncepcional (data do início e tempo de uso), disfunção sexual durante a gravidez.
História sexual pregressa: idade da sexarca, consentida ou induzida, relações sexuais prazerosas, história de violência sexual (vide protocolo de investigação de abuso sexual).
Resposta sexual individual: tem sonhos eróticos? sim não. Tem desejo sexual? sim não. Tem lubrificação? sim não. Tem orgasmo? sim não. Autoerotismo? sim não
Qualidade do relacionamento diádico: adequada, conflituosa, comunicação geral (assertiva, conflituosa). Neste momento, avaliar o sentimento em relação à parceria.
Observação: pode-se utilizar quatro palavras: amor x desamor, apego x desapego, escritas em uma folha de papel (Figura 2). Solicitar para a paciente escolher uma ou duas palavras que signifiquem o sentimento em relação à parceria. Esta é uma oportunidade para que ela faça uma reflexão sobre esse sentimento e verifique se é compatível com a vivência de relações sexuais prazerosas. Importante: a interpretação é da paciente e, se ela tiver dificuldade na escolha, é um motivo para refletir em casa sobre esse tema.
AMOR DESAMOR
APEGO DESAPEGO |
Figura 2: Ferramenta para avaliar o sentimento em relação à parceria.
A história sexual completa sugerida para uso encontra-se publicada nos protocolos disponíveis no site da FEBRASGO e está disponível em outras publicações nacionais e internacionais 11 12, (Tabela 2).
Tabela 2: Ficha de avaliação clínica da queixa sexual.
Identificação da paciente: nome, idade, profissão, escolaridade, religião, estado civil, tempo de relacionamento, situação econômica. Identificação da parceria: nome, idade, religião, escolaridade, situação econômica, hábitos. Queixa principal: identificar a fase da resposta sexual comprometida e aferir a presença de dor à relação sexual. História da queixa sexual atual: caracterizar a queixa quanto ao início, duração, fatores relacionados, fatores que melhoram, fatores que pioram. Antecedentes pessoais patológicos: medicamentos em uso, hábitos: hipertensão arterial, diabetes tipo I e II, hiperprolactinemia, hiper ou hipotireoidismo, uso de anticoncepcional hormonal, cimetidina, antidepressivos, ansiolíticos, anti-hipertensivos, antiandrogênicos, álcool, fumo, drogas ilícitas. Antecedentes gineco-obstétricos: menarca, data da última menstruação, ciclos menstruais (intervalo, duração), gestações, tipos de parto, patologias gineco-obstétricas, cirurgias gineco-obstétricas, anticoncepção, idade da menopausa, terapia hormonal. História sexual pregressa: sexarca, número de parceiros, frequência de relações sexuais, relações sexuais satisfatórias sim não, orientação sexual. Resposta sexual individual: Tem sonhos eróticos? sim não. Tem desejo sexual? sim não. Tem lubrificação? sim não. Tem orgasmo? sim não. Autoerotismo? sim não Histórico de abuso sexual: sim não. Grau de parentesco: - ---------- Qualidade da relação conjugal: Descrição da parceria: carinhoso sim não, ejaculação precoce: sim não, ejaculação retardada: sim não, disfunção erétil: sim não, outros:--------------Qualidade do relacionamento conjugal: boa ruim indiferente. |
Avaliação laboratorial mínima: hemograma, função tireoidiana, prolactina e exames pertinentes ao quadro clínico geral.
Obs.: A dosagem da testosterona total deve ser reservada para mulheres na peri e pós-menopausa natural e cirúrgica com indicação de prescrição de testosterona para tratamento do desejo sexual hipoativo. NÃO dosar testosterona em mulheres em uso de anticoncepção hormonal.
Especialista em saúde e educação sexual com vasta experiência em orientação e prevenção.


