
Compreender as experiências que uma mulher viveu durante a infância pode ajudar a entender por que ela continua em relacionamentos marcados pela violência física e psicológica. A exposição precoce a ambientes adversos pode levar ao desenvolvimento de estratégias adaptativas (“condicionamento”) de sobrevivência, o que dificulta para a mulher reconhecer um relacionamento tóxico. A exposição contínua de uma criança à violência física sofrida pela mãe, à violência sexual e a maus tratos em geral pode resultar na submissão dela, na vida adulta, às mesmas formas de violência vivenciadas na infância. Esse processo pode culminar na transmissão intergeracional e fomentar o ciclo transgeracional da violência, aumentando a vulnerabilidade das gerações seguintes, inclusive das filhas dessa mulher, à exposição ou à vivência de experiências semelhantes. Mulheres com um histórico de violência enfrentam mais dificuldades na formação de vínculos afetivos, na segurança emocional e na intimidade na vida adulta. Na prática clínica, entender essa trajetória pode auxiliar na interpretação dos motivos pelos quais algumas mulheres continuam em relacionamentos marcados pela violência, mesmo enfrentando sofrimento. Com base nas teorias de John Bowlby e René Spitz, este texto convida o leitor a explorar como os vínculos formados na infância podem influenciar as relações afetivas, a intimidade e a sexualidade da mulher adulta, oferecendo uma perspectiva para compreender comportamentos que, à primeira vista, podem parecer difíceis de explicar. Para isso, analisamos as evidências disponíveis com o objetivo de expandir o raciocínio clínico dos profissionais de saúde ao lidar com mulheres que apresentam queixas sexuais e têm um histórico de experiências adversas, como abuso sexual e violência. Além disso, buscamos compreender os fatores emocionais e relacionais que podem contribuir para a manutenção de vínculos abusivos e dificultar a sua ruptura.
As marcas da violência infantil nos relacionamentos adultos
Mulheres que enfrentaram violência crônica durante a infância, seja no ambiente familiar ou em lares substitutos, podem desenvolver estratégias adaptativas para sobreviver à violência. Esse condicionamento pode resultar em dificuldades, na sua vida adulta, para reconhecer como violentas certas relações íntimas marcadas por conflitos recorrentes, agressões físicas e violência psicológica. A exposição contínua da criança à violência física
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