# Lutteros — texto integral dos artigos gratuitos > Saúde sexual baseada em conhecimento científico. Conteúdo informativo e educativo; não substitui consulta médica individual. Ao citar, indique "Lutteros" e o link do artigo. Guia resumido: https://www.lutteros.com.br/llms.txt ## TCC focada no trauma para mulheres com histórico de abuso sexual na infância: aplicação do modelo PRACTICE URL: https://www.lutteros.com.br/articles/tcc-focada-no-trauma-para-mulheres-com-historico-de-abuso-sexual-na-infancia-aplicacao-do-modelo-practice Categoria: Protocolos Atualizado em: 2026-10-23 O abuso sexual na infância é uma causa frequente de dificuldades na função sexual e sofrimento na vida adulta. A terapia cognitivo-comportamental focada no trauma (TCC-FT) oferece fundamentos para abordar as repercussões emocionais, cognitivas e comportamentais dessa experiência. Este texto mostra, de forma resumida, a utilização do modelo PRACTICE como estratégia de aplicação da psicoeducação em sexualidade para mulheres com disfunção sexual associada ao histórico de abuso sexual na infância. São estratégias que visam promover a reestruturação cognitiva e a regulação emocional da mulher, utilizando uma combinação de técnicas para a promoção da sua saúde sexual. O processamento do trauma necessita ser conduzido de forma gradual, respeitando o tempo necessário para que a mulher recupere a autoconfiança para vivenciar uma relação sexual prazerosa. 1. Introdução A terapia cognitivo-comportamental focada no trauma (TCC-FT) é uma estratégia que tem larga aplicação para o cuidado às crianças e adolescentes com sintomas relacionados à violência sexual. A TCC-FT propõe uma sequência de intervenções que permitem escolher estratégias compatíveis com o desenvolvimento da população alvo, permitindo trabalhar culpa, vergonha e apoio familiar, sem atribuir à vítima a responsabilidade pela violência. A TCC-FT visa ainda restabelecer a regulação nos diferentes domínios afetados pelo trauma no plano i ) afetivo (ansiedade, tristeza, raiva e desregulação afetiva), ii ) comportamental (evitação de situações ou estímulos que remetem ao trauma, comportamentos autolesivos, comportamentos desadaptativos aprendidos por modelagem durante o trauma como hipersexualidade, bullying, agressividade, comportamento opositor desafiador, dificuldade para seguir regras, desregulação comportamental grave), iii ) biológico (hipervigilância, distúrbio do sono, resposta potencializada aos estímulos externos, dores crônicas, entre outros), iv ) cognitivo/perceptivo (pensamentos e lembranças intrusivos relacionados ao trauma, crenças desadaptativas associadas ao trauma, dissociação, sintomas psicóticos e desregulação cognitiva) e v ) social/escolar (dificuldades nas relações interpessoais social e na família, retraimento social, dificuldade de concentração e de desempenho escolar, comprometimento do vínculo afetivo e/ou da confiança) 1,2 . 2. Fundamentos da terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. A TCC-FT é um modelo de psicoterapia com vários componentes, incluindo treinamento de habilidades, narrativa do trauma, processamento das experiências de abuso e encontros com cuidadores. A TCC-FT melhora vários desfechos, incluindo sintomas de estresse pós-traumático, vergonha e atribuições relacionadas ao abuso 3 . O modelo organiza o tratamento em estabilização, narrativa e processamento, integração e consolidação. Utilizando-se a técnica de dessensibilização, promove-se a exposição gradual (ex.; anamneses) aos componentes do trauma, sendo este procedimento ajustado de acordo com a resposta clínica e a demanda da pessoa. Paralelamente, pais e cuidadores protetivos participam do processo, excluindo-se o autor da violência desse processo terapêutico (ex: pai abusador) 1 . 3. Cuidados antes de iniciar a terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Avaliar a segurança da paciente durante a anamnese, os sintomas, o funcionamento cognitivo, o desenvolvimento psicomotor, a rede de apoio e condições para participação de um cuidador protetivo. Definir os limites da confidencialidade e o plano de atendimento 1,3 . 4. Sequência clínica e habilidades iniciais O acrônimo PRACTICE 4,5 ajuda a lembrar os componentes: psicoeducação e habilidades parentais, relaxamento, identificação e regulação afetiva, enfrentamento cognitivo, narrativa e processamento do trauma, exposição in vivo quando indicada, sessões conjuntas e segurança com desenvolvimento futuro. (P) Psicoeducação Explicar em linguagem simples como lembranças podem ativar medo, vergonha, irritabilidade ou evitação. Normalizar as reações sem minimizar o sofrimento. No caso de crianças, informar sobre acolhimento, rotinas previsíveis, elogios específicos e limites, evitando punições por manifestações de sofrimento (ex.: para a pessoa que sofreu o trauma: o corpo e a mente reagem com alarme quando algo lembra o que aconteceu. É comum a pessoa evitar este estímulo. Vamos aprender a reconhecer esse alarme e a lidar com ele. Aprenda a identificar isto e utilize uma estratégia de substituir pensamento ruim por pensamento bom. Se o toque da pessoa que você ama lhe traz lembranças ruins, treine em focar na pessoa que lhe traz bons sentimentos e não no toque isoladamente). (R) Exercícios de relaxamento Ensinar/motivar sem exigir que a pessoa pratique exercícios de relaxamento associados aos exercícios de respiração lenta e confortável. Para crianças, é necessário adaptar ao entendimento delas (ex.: convidar a criança a perceber os pés apoiados, relaxar os ombros e respirar sem esforço). Checar o conforto da criança para esta atividade e ajustar a estratégia, se necessário. (A) Identificação e regulação afetiva (emoções). Ampliar o vocabulário emocional e reconhecer sinais no corpo. Escala de intensidade dos sintomas ajuda a identificar medo, tristeza, raiva e vergonha. Praticar formas de expressão e autorregulação ajustadas para adultos e crianças (ex.: se esse medo tivesse um tamanho de 0 a 10, qual seria? Onde você percebe isso no corpo? O que pode ajudar você a continuar aqui comigo?). (C) Enfrentamento cognitivo Discutir e ressignificar a relação que existe entre uma situação vivenciada, o pensamento derivado dela, o sentimento que a situação promove e a atitude da pessoa de acordo com a interpretação dela da situação (ex.; situação: uma amiga não respondeu; pensamento: “ela não gosta de mim”; emoção: tristeza; ação: afastar-se). Esta estratégia pode ser utilizada para trabalhar situações de nojo, culpa, vergonha, entre outras. (T) Narrativa e processamento do trauma. Para crianças, utilizam-se estratégias específicas. Convidar a criança para uma atividade como se estivesse escrevendo e ilustrando um livro, permitindo que ela expresse suas lembranças, pensamentos e emoções, enquanto o profissional busca compreender os significados. Neste processo de vínculo com o profissional, a criança tem a oportunidade de expressar seus sentimentos e experiências por meio da linguagem verbal e escrita. Algumas ações que podem acompanhar este processo: i ) Explicar o propósito da atividade e combinar uma forma de comunicação e um sinal para indicar desconforto, ii ) Começar por conteúdos que a criança consiga abordar, incluindo informações sobre si e sua vida, e avançar gradualmente para a experiência traumática, iii ) Acompanhar a intensidade emocional e a capacidade de permanecer envolvida; retomar habilidades de enfrentamento e ajustar o ritmo quando necessário, iv ) Identificar interpretações de culpa, vergonha ou perigo durante o relato e trabalhá-las em conjunto, v ) Encerrar com orientação ao presente, revisão do que foi aprendido e planejamento do apoio entre sessões. Esses passos traduzem o trecho em um roteiro didático, e não em um calendário obrigatório. Não exigir detalhes gráficos, induzir respostas ou tentar recuperar lembranças. A narrativa terapêutica tem finalidade clínica e não substitui entrevista investigativa ou avaliação pericial 5 . No contexto da pessoa adulta, a narrativa pode ser obtida por meio de uma ficha clínica bem estruturada. Exemplo de processamento cognitivo da culpa e da vergonha; a pessoa pode se sentir culpada porque, na interpretação dela, na vida adulta, é de que “se fui até ele, então a culpa foi minha” (modelo cognitivo de Beck: se, então). Primeiro, acolher a experiência: “Entendo que você esteja ligando essas duas coisas”. Depois explorar, com perguntas abertas, o que ela sabia, quais escolhas realmente tinha e quem tinha responsabilidade por respeitar os limites. Formular com ela uma compreensão mais precisa, em vez de apenas repetir que não tem culpa. Para isso, existem falas possíveis ajustadas para cada peso, ex: “Ir procurar alguém de quem você gostava dava a essa pessoa o direito de abusar de você?”; “O que você diria a outra criança na mesma situação?”; “Sentir carinho por alguém e ter sido machucada por essa pessoa podem acontecer ao mesmo tempo”. O foco é corrigir a atribuição de responsabilidade sem invalidar o afeto, a ambivalência ou as estratégias que a criança utilizou para sobreviver 2,4 . A psicoterapia, nestes casos, é fundamental para acompanhar a pessoa juntamente com a terapia sexual. No caso de crianças, é necessário realizar um trabalho paralelo com os pais/cuidadores protetivos, utilizando os encontros individuais para ensinar-lhes habilidades, explorar reações dos pais/cuidadores protetivos e prepará-los para oferecer apoio à criança. Utilizar role-play para ensaiar como ouvir sem interrogar, sem culpar e sem que a ação seja interpretada como ameaçadora para a criança. Ex: “Que bom que você me contou. Você não é responsável pelo que aconteceu. Quero ouvir como posso ajudar”. (I) Exposição in vivo (dessensibilização sistemática) Esse componente aborda a evitação de situações que são atualmente seguras, mas que, por estarem associadas ao trauma, geram desconforto. Ex.: estímulo erótico na genitália pela parceria, levando à evitação por memórias do trauma. Como estratégia, elaborar passos graduais e praticá-los com apoio, verificando a segurança da pessoa para a situação. O foco sensório I é uma estratégia de aproximação gradual até que a pessoa se sinta confortável para progredir para o foco sensório II, que envolve o toque em áreas eróticas. (C) Sessões conjuntas entre a criança e pais/cuidador protetivo. Para as sessões conjuntas com pais/cuidador protetivo e criança, definir a finalidade do encontro, preparar a criança e pais/cuidador protetivo separadamente e combinar o conteúdo a compartilhar. No encontro, facilitar escuta, apoio e comunicação sobre o trauma, além de abordar segurança pessoal e sexualidade saudável. Ex.: a criança apresenta o conteúdo combinado; o cuidador responde com acolhimento; o terapeuta verifica como ambos se sentiram e ajuda a esclarecer dúvidas; a família combina uma forma de apoio para a semana 4,5 . (E) Segurança e desenvolvimento futuro. Trabalhar conhecimento do corpo, privacidade, limites, relações respeitosas e busca de ajuda. Para as crianças, ensinar habilidades de segurança atual sem que elas sintam que poderiam ou deveriam ter impedido o abuso. Acompanhamento. Registrar a evolução de sintomas como sono, frequência escolar, evitação, culpa, regulação emocional, apoio dos pais/cuidador protetivo e capacidade de pedir ajuda. Quando apropriado, utilizar medidas validadas para idade e contexto junto à avaliação clínica. --- ## Protocolo de anamnese em Sexologia e critérios diagnósticos das disfunções sexuais URL: https://www.lutteros.com.br/articles/protocolo-de-anamnese-em-sexologia-e-criterios-diagnosticos-das-disfuncoes-sexuais Categoria: Protocolos Atualizado em: 2026-10-23 O protocolo de anamnese sexual que disponibilizamos oferece orientação prática para investigar, com segurança, as queixas sexuais da mulher, mas que pode ser utilizado para avaliar a queixa sexual masculina. As disfunções sexuais são prevalentes em todo o mundo, afetando cerca de 43% das mulheres e 32% dos homens, entretanto, apenas 20% a 30% dos médicos abordam o tema durante a consulta. Perguntar adequadamente permite reconhecer sofrimento, identificar fatores clínicos e psicossociais e planejar intervenções individualizadas. Essa abordagem é respaldada pelo relatório da OMS de 1975, Education and Treatment in Human Sexuality, referência para a formação dos profissionais de saúde. 1. Introdução A Organização Mundial da Saúde refere que a saúde sexual é a integração dos aspectos somático, emocional, intelectual e social do ser sexual, de forma que enriqueça positivamente e melhore a personalidade, comunicação e o amor. Portanto, a promoção da saúde sexual implica a abordagem positiva da sexualidade humana, visando melhorar a vida pessoal e os relacionamentos interpessoais 1 . No Brasil, as queixas sexuais atingem 43% das mulheres e 32% dos homens 2 e, em determinadas populações, respondem por grande parte dos casos de divórcios 3 sendo, portanto, uma questão de saúde pública. De acordo com a Classificação Internacional das Doenças (CID) 11, as disfunções sexuais são “síndromes que compreendem as várias maneiras pelas quais as pessoas adultas podem ter dificuldade em experimentar atividades sexuais pessoalmente satisfatórias e não coercitivas. A resposta sexual é uma interação complexa de processos psicológicos, interpessoais, sociais, culturais e fisiológicos, e um ou mais desses fatores podem afetar qualquer estágio desta resposta. Para ser considerada uma disfunção sexual, a disfunção deve: 1) ocorrer com frequência, embora possa estar ausente em algumas ocasiões; 2) estar presente por pelo menos vários meses; e 3) estar associada a sofrimento clinicamente significativo” 4 . São quatro grupos de disfunções sexuais que se subdividem de acordo com os fatores associados: Desejo Sexual Hipoativo (HA00), Disfunções da excitação sexual (HA01), Disfunções orgásticas (HA02), Disfunções ejaculatórias (HA03) e Transtorno doloroso à penetração sexual (HA20) 4 . O desejo sexual hipoativo (DSH) refere-se à persistente ou recorrente deficiência ou ausência de fantasias sexuais/pensamentos, e/ou desejo ou receptividade para a atividade sexual, que causa angústia pessoal sendo a presença de “sofrimento”, a condição básica para caracterizar a disfunção sexual. A disfunção de excitação é a incapacidade persistente ou recorrente de adquirir ou manter uma resposta excitatória adequada (lubrificação, turgescência) até a consumação da atividade sexual. A disfunção orgástica é uma condição caracterizada pela demora persistente ou recorrente ou incapacidade de alcançar o orgasmo após uma fase de excitação sexual normal, resultando em angústia e/ou dificuldade interpessoal 4 . O transtorno doloroso à penetração sexual compreende (vaginismo) e é caracterizado por pelo menos um dos seguintes sintomas: 1) dificuldades acentuadas e persistentes ou recorrentes com a penetração, inclusive devido à contração ou tensão involuntária dos músculos do assoalho pélvico durante a tentativa de penetração; 2) dor vulvovaginal ou pélvica acentuada e persistente ou recorrente durante a penetração; 3) medo ou ansiedade acentuados e persistentes ou recorrentes da dor vulvovaginal ou pélvica em antecipação, durante ou como resultado da penetração. Os sintomas são recorrentes durante interações sexuais envolvendo tentativa de penetração, apesar do desejo e estimulação sexual adequados. Não são inteiramente atribuíveis a uma condição clínica que afete adversamente a área pélvica e resulte em dor genital e/ou penetrativa ou a um transtorno mental. Não são inteiramente atribuíveis à lubrificação vaginal insuficiente ou alterações pós-menopausa/relacionadas à idade, e estão associadas a sofrimento clinicamente significativo 4 . A vulvodínia descreve uma sensação crônica de dor, queimação ou ardor na pele da vulva que não pode ser atribuída a qualquer causa específica e que persiste por pelo menos três meses. Os sintomas podem ser difusos e não provocados (vulvodínia disestética) ou localizados, geralmente no vestíbulo vulvar, e provocados pelo toque (vestibulodínia). A vulvodínia disestética ocorre caracteristicamente em mulheres após a menopausa e que frequentemente não são sexualmente ativas: a dor é espontânea e frequentemente ocorre independentemente do toque. A vestibulodínia ocorre tipicamente em mulheres mais jovens e é caracterizada por sensibilidade vestibular ao toque, eritema do epitélio vestibular e dispareunia secundária 4 . A dispareunia é um sintoma de dor à relação sexual que pode ocorrer devido a diversas comorbidades gerais, genitais e urológicas. 2. Método de investigação das disfunções sexuais. Identificação da queixa sexual : Qual a fase da sua resposta sexual está alterada: a fase do desejo sexual? A fase da excitação? A fase do orgasmo? Tem dor durante a relação sexual? Caracterização da queixa sexual : início, duração, evento que determinou o surgimento da queixa, possíveis fatores associados, fatores que melhoram ou pioram a queixa (Figura 1). Figura 1: Caracterização da queixa sexual. Fatores associados à disfunção sexual: definir se a queixa sexual está associada a causa orgânica (surgimento após uso de determinado medicamento, no curso de patologias crônicas, após cirurgia, parto, menopausa, no climatério), psíquica (devido à repressão sexual familiar, religiosa ou social, após violência doméstica ou sexual, quebra de contrato, mitos e crendices) ou mista (pela sobreposição de fatores orgânicos e psíquicos) 5–10 (Tabela 1). Tabela 1: Fatores associados às disfunções sexuais femininas. Condições médicas Diabetes, hipertensão arterial, tireoidopatias, neuropatias, dor pélvica crônica, depressão, ansiedade, doenças urológicas, hipoestrogenismo, hiperprolactinemia, hipoandrogenismo. Drogas psicoativas e depressoras do sistema nervoso central. Benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos, inibidores da recaptação da serotonina (ISRSs), antipsicóticos antidopaminérgicos, antiandrogênicos (ciproterona, espironolactona), beta-bloqueadores adrenérgicos (propranolol), anti-hipertensivos de ação central (metildopa, reserpina), bloqueadores H2 histamina (cimetidina, ranitidina), anticoncepcionais hormonais. Diádicas (relacionais) Relação conflituosa, de longa duração, a rotina relacional, ausência do ritual de sedução, preliminares insuficientes, disfunção sexual do parceiro. Socioculturais Costumes, valores, tabus e mitos. Violência sexual Abuso sexual, estupro, autoestima rebaixada, valores negativos em relação a sexualidade. Quebra de contrato. Relações extraconjugais cursam com DSH e dificuldade de entrega. Repressão sexual Familiar, religiosa e social no processo de formação da sexualidade induz ao sentimento negativo em relação à sua sexualidade e inibe a expressão sexual. Hormonais Hiperprolactinemia, anticoncepcionais hormonais, hipotireoidismo, hipoestrogenismo. Desconhecimento da anatomia genital e da resposta sexual. Repertório sexual limitado, inibição, dificuldade de entrega. História gineco-obstétrica: idade da menarca, gestações e partos, via de parto, complicações na gravidez e parto, método anticoncepcional (data do início e tempo de uso), disfunção sexual durante a gravidez. História sexual pregressa: idade da sexarca, consentida ou induzida, relações sexuais prazerosas, história de violência sexual (vide protocolo de investigação de abuso sexual). Resposta sexual individual: tem sonhos eróticos? šsim šnão. Tem desejo sexual? šsim šnão. Tem lubrificação? šsim šnão. Tem orgasmo? šsim šnão. Autoerotismo? šsim šnão Qualidade do relacionamento diádico: adequada, conflituosa, comunicação geral (assertiva, conflituosa). Neste momento, avaliar o sentimento em relação à parceria. Observação : pode-se utilizar quatro palavras: amor x desamor, apego x desapego, escritas em uma folha de papel (Figura 2). Solicitar para a paciente escolher uma ou duas palavras que signifiquem o sentimento em relação à parceria. Esta é uma oportunidade para que ela faça uma reflexão sobre esse sentimento e verifique se é compatível com a vivência de relações sexuais prazerosas. Importante: a interpretação é da paciente e, se ela tiver dificuldade na escolha, é um motivo para refletir em casa sobre esse tema. AMOR DESAMOR APEGO DESAPEGO Figura 2: Ferramenta para avaliar o sentimento em relação à parceria. A história sexual completa sugerida para uso encontra-se publicada nos protocolos disponíveis no site da FEBRASGO e está disponível em outras publicações nacionais e internacionais 11 12 , (Tabela 2). Tabela 2: Ficha de avaliação clínica da queixa sexual. Ficha - Protocolo de anamnese em Sexologia Identificação da paciente: nome, idade, profissão, escolaridade, religião, estado civil, tempo de relacionamento, situação econômica. Identificação da parceria: nome, idade, religião, escolaridade, situação econômica, hábitos. Queixa principal: identificar a fase da resposta sexual comprometida e aferir a presença de dor à relação sexual. História da queixa sexual atual: caracterizar a queixa quanto ao início, duração, fatores relacionados, fatores que melhoram, fatores que pioram. Antecedentes pessoais patológicos : medicamentos em uso, hábitos: hipertensão arterial, diabetes tipo I e II, hiperprolactinemia, hiper ou hipotireoidismo, uso de anticoncepcional hormonal, cimetidina, antidepressivos, ansiolíticos, anti-hipertensivos, antiandrogênicos, álcool, fumo, drogas ilícitas. Antecedentes gineco-obstétricos : menarca, data da última menstruação, ciclos menstruais (intervalo, duração), gestações, tipos de parto, patologias gineco-obstétricas, cirurgias gineco-obstétricas, anticoncepção, idade da menopausa, terapia hormonal. História sexual pregressa : sexarca, número de parceiros, frequência de relações sexuais, relações sexuais satisfatórias šsim šnão, orientação sexual. Resposta sexual individual: Tem sonhos eróticos? šsim šnão. Tem desejo sexual? šsim šnão. Tem lubrificação? šsim šnão. Tem orgasmo? šsim šnão. Autoerotismo? šsim šnão Histórico de abuso sexual : šsim šnão. Grau de parentesco: - ---------- Qualidade da relação conjugal: Descrição da parceria: šcarinhoso šsim šnão, ejaculação precoce: šsim šnão, ejaculação retardada: šsim šnão, disfunção erétil: šsim šnão, outros:--------------Qualidade do relacionamento conjugal: šboa šruim š indiferente. Avaliação laboratorial mínima: hemograma, função tireoidiana, prolactina e exames pertinentes ao quadro clínico geral. Obs.: A dosagem da testosterona total deve ser reservada para mulheres na peri e pós-menopausa natural e cirúrgica com indicação de prescrição de testosterona para tratamento do desejo sexual hipoativo. NÃO dosar testosterona em mulheres em uso de anticoncepção hormonal. --- ## Riscos de cirurgias no CLITÓRIS URL: https://www.lutteros.com.br/articles/riscos-de-cirurgias-no-clitoris Categoria: Saúde sexual Atualizado em: 2026-10-23 As cirurgias realizadas para redução do tamanho do clitóris podem causar redução da sensibilidade prazerosa do órgão e levar à anorgasmia. Paralelamente ao uso indiscriminado dos implantes de testosterona, cresce o mercado das chamadas “cirurgias íntimas”, entre elas os procedimentos de redução e reposicionamento do clitóris. Esta intervenção é tecnicamente complexa, realizada em uma estrutura com rica vascularização e extensa rede de nervos que são responsáveis pelo prazer sexual. A manipulação cirúrgica do clitóris pode danificar as terminações nervosas essenciais para a sensibilidade erótica e para o orgasmo. Entre as possíveis complicações cirúrgicas do clitóris estão a diminuição da sensibilidade, dor crônica, redução do prazer sexual e anorgasmia. Uma revisão sistemática evidenciou estes efeitos adversos em 22% das mulheres que passaram por procedimentos na região do clitóris 1 . O clitóris é um órgão composto por estruturas eréteis e não eréteis, cuja única função conhecida até hoje é a promoção o prazer sexual feminino. O clitóris apresenta ampla variabilidade anatômica, tanto em sua forma quanto em suas dimensões. A estrutura do clitóris foi redefinida em estudo recente, utilizando tecnologia avançada para aquisição de imagens por microtomografia computadorizada em escala micrométrica (“ micron-scale computed tomography imaging ”) utilizando radiação sincrotron 2 . Esta tecnologia permitiu certificar o trajeto do nervo dorsal do clitóris e redefinir a extensa rede de nervos sensoriais existente na glande do clitóris. O nervo dorsal do clitóris é um ramo do nervo pudendo. Seus ramos direito e esquerdo seguem juntos aos pilares clitorianos (crura), onde o ramo esquerdo percorre trajeto entre as posições de 1 e 2 horas, enquanto o ramo direito segue entre 10 e 11 horas, em relação à linha média 2 . O nervo dorsal do clitóris também inerva o prepúcio do clitóris e o monte pubiano 1 . Recentemente, uma metanálise que compilou dados de diversos estudos estimou que a glande apresenta, em média, 6,40 mm de comprimento e 5,14 mm da largura, o corpo do clitóris mede 25,46 mm e 9,00 mm de largura, os ramos (crura) medem, em média, 52,41 mm e 8,71 mm de largura, os bulbos vestibulares medem 52,00 mm de comprimento e 10,33 mm de largura. O estudo também demonstrou que a distância média entre o clitóris e o meato uretral externo é de 22,27 mm, entre o clitóris e o óstio da vagina é de 43,14 mm e entre o clitóris e o ânus é de 76,30 mm 3 . Conhecer a anatomia do clitóris e a localização da inervação sensorial é fundamental para a prevenção de danos derivados de intervenções cirúrgicas na genitália feminina, que podem comprometer a sensibilidade da região e danificar a resposta sexual prazerosa da mulher